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terça-feira, 29 de julho de 2008

A Polenta de todos os sabores




A polenta de todos os sabores
Olhar para o passado, em alguns momentos é bastante interessante. É na realidade uma evocação que passa pelos estágios da memória ou da lembrança. Sou um “catador/coletor” de objetos, mas longe de ser chamado de colecionador. Tenho de tudo, regador de folha (zinco) com mais de 80 anos, lamparinas e lampiões, xícaras, pratos, facas, garfos, ... a lista é grande. Por onde passo, observo o ambiente e vejo se há possibilidade de pedir ou trocar por algo mais útil para o possível doador. Chego em casa, limpo, e penduro em algum lugar. Mas isso é o menos importante de todo o processo. Recentemente ganhei uma panela de polenta, daquelas que você retira as argolas do fogão à lenha. Levei uns dois dias para retirar as camadas que o tempo se encarregou de empilhar e lá está ela; bonita, robusta, com um brilho real e um brilho subliminar ainda maior. Para nós com pelo menos 50 anos e tivemos o prazer de conhecer a senhora Irma Perini Zanatta, mulher que nos deixou cedo demais. Seu tempero ainda permeia as narinas e o palato. Para quem a viu em volta de um fogão, lembrar é bom demais. Doceira como poucas na cidade e seus pastéis, irreparáveis. Alegre e desenvolta, deve estar nos protegendo de algum lugar. Mas tem outra coisa importante nesta relação com o passado. Apesar de nossa história ser recente, é necessário ser catador/coletor. Isso não desmerece, e para aqueles que não tem esse “problemas genético” peço que não joguem nada fora. Guardem em algum lugar, verão que é extremamente gratificante. Acredito que isso agrega valores culturais e nos dá um pertencimento social diferenciado. Vendo aquela panela de polenta sobre o fogão penso nas mulheres que um dia fizeram esse trabalho tão nobre ao redor de um fogão que ardia da manhã a noite. Tem um fato que não presenciei mas vi o resultado; O Vasco Zanatta e sua esposa Jurema juntamente com a dona Irma Zanatta estiveram a frente do restaurante Tres Reis, isso lá pelos anos 60. Um dia, segundo relatos, foram despejar a polenta que seria servida e por descuido a Jurema deixou que algumas rebarbas da pasta caisse sobre sua mão. A dor deve ter sido horrível. Mas não desistiu, continuaram a servir polentas. Aquela panela também serve como instrumento material para ver o quanto as novas gerações precisam conhecer os instrumentos do passado. Meu filho Bruno, com 20 anos chegou em casa e, ao olhar para a panela perguntou: o que é isso aí? Fiquei feliz com a pergunta, acho que se a indagação não viesse, ficaria triste, muito triste. Respondi que era uma pnela de polenta, mostrei... enfim, ele entendeu a sua finalidade. Será que isso vai adiante? Pessolmente acho que depende dos pais mostrarem para os filhos. Ainda olhando para a panela, penso na dona Angelina Perini, matrona de uma familia de agricultores da Linha 28. Quando ainda era possível caçar passarinhos, ela era responsável, entre outras coisas, pela polenta. Meu Deus! como se comia bem. O paladar ainda é possível sentí-lo. Lembro ainda da inúmeras panelas de polenta que deixaram as cozinhas e foram servir de adorno com flores penduradas nos jardins. Que pena ver isso! O tempo não respeita nada e certamente já devem ter desaparecido. Mas lembro também que a panela da polenta era um objeto de respeito junto aos utensílios domésticos. Lembro que depois de ser retirada a pasta, comer a crosta que ficava era um prazer. Acredito que hoje isso não deve ser visto com bons olhos para quem (não) entende de alimentação. Mas era prazeroso sentir o “crocante da casca”. Apesar de torcer para que o homem encontre cada vez mais soluções éticas e tecnológicas que contribuirão para a facilidade da vida das pessoas, a panela da polenta e muitos ainda devem ter, apesar de não a utilizarem será um instrumento de saudades, de alegrias e de uma pitada de tristeza pela falta que muitas pessoas que sabiam fazer uma boa polenta. Na minha história de vida, a polenta terá sempre um lugar especial.
Agosto – Um mês de pessoas Especiais.
Passei a gostar do mês de agosto. Dois motivos me levaram a mudar de idéia: o primeiro motivo foi o nascimento de minha filha Luciana e o segundo, que descobri a pouco tempo foi de que no dia 17 é lembrado o dia de nascimento de uma pessoa também importante: Marisa Negrini Bertolucci. Acho que afora a família e eu, poucos sabem que foi essa pessoa. Mas aqueles que acessarem este site e lerem o que escrevo irão ter uma bela recordação. Marisa Bertolucci foi uma das minhas primeiras professoras ainda quando o Grupo Escolar Santos Dumont tinha como endereço a esquina das ruas Madre Verônica com Garibaldi, lembram? Pois bem. A Professora Marisa era de uma elegância não só física mas também intelectual. Sorriso nos lábios, cabelo sempre alinhado, discreta e se estava triste nunca demosntrou. A casa em que morou é aonde hoje se localiza a empresa Broilo Iluminações, ali na Borges de Medeiros. Se me lembro bem, ela lecionava na terceira série, naquela época se aprendia a tabuada do “três”, que coisa mais chata, nuca gostei da tabuada, bem vinda seja a calculadora. A Professora Marisa utilizava as frutas da época para nos ensinar. Lembro que o início da tabuada foi nesse de inverno. Levou uma sacola com bergamotas. Não há como esquecer: casa vez que vou comer uma que seja ela vem na lembrança. Que pessoa boa. Há poucos dias escutava um programa na televisão cujo tema era atos de humanidade. Assisti do início ao fim. Vi na voz da interlocutora a Professora Marisa. Naquela época o ano letivo era de aproximadamente 160 dias assim, no final de novembro já estávamos curtindo as férias. Era nesse período que a Professora Marisa me confiava seus dois filhos: a Eloísa e o Junico, duas “pestes” que não davam sossego. Junto com a Maria Inês Accorsi, que também leva de arrasto o Pedrinho e a Maria do Carmo, a Rosa Gale, o Jaco seu irmão, o Paulo Valério Correa e outros, subíamos o morro até o Gramado Tênis Clube. Pouco tempo depois chegava a a Professora, sempre elegante. Ao retornar, era certo que um lanche seria servido; suco de uva ou suco de laranja. Tudo era muito divertido. Esse prélipo durava até março quando o seu Hugo ( lembram dele? ) fechava a porta principal com uma corrente. Foi assim que convivi por muitos anos com a amizade e o carinho da Professora Marisa. Lembro que usávamos um guardapó branco com uma gravata azul-marinho, para as meninas a peça era um pouco mais comprida, até os joelhos. Numa das brincadeiras e no corre-corre antes da formação da fila para entrar no colégio, alguém, sem querer, puxou minha gravata e o nó se desfez. Naquele dia a Professora Marisa fazia a formação dos alunos para a entrada. Qual a minha aflição? Não poder entrar na Escola por conta da gravata. A Professora Marisa desceu os degraus, tirou do bolso uma joaninha e com todo o cuidado deu vida ao nó da gravata. Num sete de setembro, quando ainda era marcado direita/esquerda, fazia muito frio. Para acompanhar a trajetória do desfile, ela tirou um casaco grosso, desses que o frio exige, achei estranho e, despreocupado com a etiqueta, perguntei a ela a razão. Marisa respondeu: hoje somos todos iguais. Claro! Como é que uma Professora caminharia abrigada com seu casaco e seus alunos, apesar de relativamente agasalhados, não? Lá foram elas, todas as professoras com seus jalecos alvíssimos desfilando para a comunidade. Domingo, 27, fiz uma prova classificatória para o curso de Letras. O tema da redação era uma reflexão de uma estrofe do Hino Nacional ...Terra adorada... Pátria amada... Acreditem a Professora Marisa permeou minha escrita. Quanta dificuldade para entender a razão de termos que nos separar das pessoas que nos fazem ou que nos fizeram bem. Por que? Deixemos este tema para uma próxima oportunidade. Espero que o leitor tenha tido alguma experiência próxima com a Professora Marisa Negrini Bertolucci. Se não foi no aprendeizado da tabuada do “três”, fico mais contente, porque não fosse a sua habilidade como educadora... Por razões do destino, o Ricardo, seu neto, apesar de malandro, foi um dos alunos mais educados que tive... Quando descobri a origem dele, e isso levou algum tempo, refleti que em alguns pontos, os traços dos antepassados marcam definitivamente a personalidade das gerações futuras.

Por Gilnei Casagrande, especial para a radiofloresta...

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